Delegada esclarece morte de mulher na Raposo e explica como corpo foi parar a 8 km do acidente

Em entrevista exclusiva nesta terça-feira (27), a delegada de Cotia Mônica Gamboa reconstituiu a sequência dos fatos e detalhou o relato do motorista envolvido no segundo episódio

Foto: Anderson Fernandes / Cotia & Cia 


O caso, que inicialmente levantou dúvidas sobre a dinâmica dos acontecimentos, foi esclarecido pela delegada titular do município, Mônica Gamboa, em entrevista exclusiva concedida nesta terça-feira (27) ao Cotia & Cia e ao Blog Cotia (veja a entrevista no final da reportagem). 

A vítima foi identificada como Dayanny Lopes da Silva. Segundo a investigação, ela estava na garupa de uma motocicleta conduzida pelo namorado quando o casal sofreu um acidente na altura do km 27,8 da Raposo Tavares, no sentido Cotia. Com o impacto, a mulher foi arremessada para a pista e morreu ainda no local, em decorrência de um grave traumatismo craniano.

Algum tempo depois, um Hyundai i30 prata passou pelo mesmo trecho e atingiu o corpo da mulher, arrastando-o por parte do trajeto. O motorista, segundo a delegada, não percebeu que havia passado sobre uma pessoa e continuou a viagem. Cerca de oito quilômetros adiante, ao parar o veículo na Rua Nelson Ranieri, ele descobriu o corpo.

Durante a entrevista, Mônica Gamboa trouxe um esclarecimento importante sobre a investigação: segundo as informações médico-legais recebidas do Instituto Médico Legal (IML) de Cotia, Dayanny já estava morta quando o segundo veículo passou sobre seu corpo. Por isso, a delegada explicou que, diante da dinâmica apurada até o momento, não há elementos para atribuir ao motorista do Hyundai i30 o crime de homicídio na direção de veículo automotor relacionado à morte da mulher.

“Ele não atropelou alguém, ele arrastou um cadáver que já estava morto”, afirmou a delegada, ressaltando que o inquérito ainda está em andamento.

Polícia identificou dois acidentes distintos

Ao detalhar a conclusão preliminar da investigação, Mônica Gamboa explicou que o caso envolve dois episódios distintos: a queda da motocicleta, que resultou na morte de Dayanny, e o posterior contato do Hyundai i30 com o corpo da vítima.

“Então, hoje, o que eu posso afirmar é que nós estamos diante de dois acidentes”, declarou.

A delegada também ponderou que ainda não é possível descartar outras implicações jurídicas relacionadas à segunda ocorrência. Entre as hipóteses que podem ser examinadas está a omissão de socorro, prevista na legislação de trânsito.

No entanto, segundo ela, seria precipitado afirmar que houve esse crime antes da conclusão das diligências. Mônica explicou que a omissão de socorro exige uma análise sobre a conduta do motorista e as circunstâncias em que os fatos aconteceram.

“O crime de omissão de socorro tem que ser de forma dolosa”, afirmou, acrescentando que, conforme o relato apresentado pelo condutor, ele não percebeu que havia atingido o corpo de uma pessoa.

A delegada destacou que o motorista acreditou ter passado por um buraco ou por uma peça de caminhão que estaria na pista. Por isso, segundo a versão apresentada à polícia, ele não compreendeu o episódio como um acidente envolvendo uma vítima.

“Ele achou que estava passando por um buraco e era uma peça de caminhão no meio da via. Ele não entende aquilo como um acidente”, relatou.

Mônica Gamboa reforçou que a investigação continua, com oitivas e outras diligências pendentes. Assim, eventuais responsabilidades relacionadas ao segundo episódio ainda dependem da análise do conjunto de provas.

Como aconteceu o acidente na Raposo Tavares

De acordo com a delegada, Dayanny e o namorado retornavam de uma festa familiar quando sofreram o acidente de motocicleta, durante a madrugada de domingo (25).

O registro policial aponta que a Polícia Militar Rodoviária foi acionada por volta das 3h29 para atender à ocorrência no km 27,8 da rodovia. Quando as equipes chegaram, o motociclista recebia atendimento da concessionária Ecovias. Inicialmente, ele afirmou que estava sozinho na motocicleta.

Uma testemunha que passava pelo local relatou ter visto duas pessoas sinalizando a rodovia e, logo depois, uma pessoa caída no chão. O homem, que é técnico de enfermagem, parou para prestar socorro e afirmou ter percebido parte de um rosto feminino no asfalto, indicando que poderia haver uma segunda vítima.

Os policiais fizeram buscas nas imediações, mas não encontraram outra pessoa naquele momento. As duas pessoas que, segundo a testemunha, sinalizavam o trecho já haviam deixado o local.

A situação começou a ficar mais clara quando outra equipe da Polícia Militar comunicou a localização de um corpo feminino na Rua Nelson Ranieri, a aproximadamente oito quilômetros dali.

Motorista pensou ter passado sobre peça na pista

Segundo a delegada, o motorista do Hyundai i30 também retornava de uma festa familiar, acompanhado da namorada.

De acordo com ela, ele contou que avistou um veículo parado à direita da rodovia e um objeto atravessado na pista. Inicialmente, acreditou que se tratava de uma peça que havia se desprendido de um caminhão.

O condutor tentou desviar, mas não conseguiu realizar a manobra porque outro veículo trafegava pela faixa à esquerda. Com isso, acabou passando sobre o objeto.

Conforme Gamboa, o motorista acreditou ter passado por um buraco e seguiu viagem sem perceber que havia atingido o corpo de Dayanny.

Corpo foi descoberto em rua de Cotia

Após percorrer aproximadamente oito quilômetros, o motorista entrou na via de acesso à região da Nelson Ranieri, nas proximidades do Corpo de Bombeiros de Cotia.

Durante uma subida, o carro parou. Acreditando que o veículo pudesse ter sofrido algum dano ao passar pelo objeto na rodovia, o homem desceu para verificar a parte externa do automóvel, mas não encontrou avarias.

A perícia realizada posteriormente também não identificou danos no carro, segundo a delegada.

O motorista voltou ao veículo e, ao engatar a marcha à ré, ouviu um barulho. Ao descer novamente, encontrou o corpo da mulher.

De acordo com Mônica Gamboa, o condutor e a namorada ficaram em estado de choque e começaram a telefonar em busca de ajuda. Como o episódio ocorreu durante a madrugada, em meio a uma forte chuva, tiveram dificuldades para conseguir contato.

Uma testemunha conseguiu atender a uma das ligações, foi até o endereço e acionou o Corpo de Bombeiros.

Foi nesse momento que a presença do corpo na Rua Nelson Ranieri foi comunicada às autoridades.

Motorista se apresentou espontaneamente à polícia

Segundo a delegada, o motorista do Hyundai i30 foi identificado e se apresentou espontaneamente à Polícia Civil para prestar esclarecimentos.

O relato do condutor, associado aos demais elementos reunidos durante a apuração, ajudou os investigadores a reconstruir a sequência dos acontecimentos e entender por que o corpo foi encontrado tão distante do local do primeiro acidente.

A investigação segue em andamento, com diligências e depoimentos ainda pendentes. A Polícia Civil trabalha para esclarecer todas as circunstâncias dos dois episódios e avaliar eventuais responsabilidades à luz das provas reunidas.

Namorado ficou ferido e será ouvido formalmente

O namorado de Dayanny também ficou ferido no acidente. Ele foi socorrido pela equipe da Ecovias e levado inicialmente ao Hospital Regional de Cotia, sendo posteriormente transferido para o Hospital Regional de Osasco.

Conforme o boletim de ocorrência, o motociclista apresentava traumatismo cranioencefálico leve e fratura em um dos membros superiores.

Em uma entrevista preliminar realizada no hospital, ele relatou que havia participado de um evento familiar em Carapicuíba com a namorada e afirmou que os dois haviam ingerido bebida alcoólica antes de iniciar o deslocamento em direção a Cotia.

Ele também declarou que mantinha um relacionamento com Dayanny havia aproximadamente dois meses e disse não se lembrar da dinâmica do acidente, alegando ter sofrido um lapso de memória.

A identidade da vítima foi confirmada inicialmente pelo motociclista, por meio de uma imagem de uma tatuagem encontrada no corpo, e posteriormente por uma tia dela, localizada em Carapicuíba.

Devido ao estado clínico do homem, a Polícia Civil realizou apenas uma entrevista preliminar e o intimou a prestar depoimento formal após receber alta hospitalar.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil de Cotia. Segundo Mônica Gamboa, a apuração ainda depende de novas oitivas e diligências para que todas as circunstâncias sejam esclarecidas.



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