A psicóloga Evenyn Uchoa aborda os impactos das plataformas de apostas no desenvolvimento de crianças e adolescentes e defende o fortalecimento do diálogo dentro de casa
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| Imagem: Reprodução |
Coluna Razão de Crescer, por Evenyn Uchôa
Durante muito tempo, nossa preocupação foi o tempo que crianças e adolescentes passavam em frente às telas. Mas hoje eu gostaria de fazer um convite diferente: em vez de perguntar quanto tempo eles permanecem conectados, talvez devêssemos perguntar o que existe do outro lado das telas.
Quem acompanha a Copa do Mundo provavelmente percebeu uma mudança. Apostar deixou de aparecer apenas nos intervalos comerciais. As plataformas estão nas placas dos estádios, nos patrocínios, nas transmissões, nas redes sociais e nas conversas entre amigos. Para muita gente, fazer um palpite já parece fazer parte da experiência de assistir ao jogo.
O problema não é o futebol.
O futebol sempre foi encontro, emoção, memória e pertencimento. Ao longo das últimas décadas, no entanto, uma indústria multibilionária cresceu ao redor dele. E, nos últimos anos, um novo mercado passou a ocupar esse espaço: o das apostas esportivas. Assim como aconteceu com muitas plataformas digitais, as bets passaram a disputar algo extremamente valioso: a nossa atenção.
E isso deveria nos interessar, principalmente quando falamos de infância e adolescência.
Os dados mostram que essa realidade já alcançou os mais jovens. Uma pesquisa realizada pela Ipsos, em parceria com a Unico, revelou que 11% dos brasileiros entre 10 e 17 anos já fizeram apostas em 2025. Entre os meninos de 16 e 17 anos, esse número chega a 20%. Outro levantamento aponta que 10,5% dos adolescentes entre 14 e 17 anos apostaram no último ano, o equivalente a aproximadamente 1,4 milhão de jovens, mesmo com a proibição para menores de 18 anos.
Esses números nos fazem perguntar: se existe uma idade mínima para apostar, por que tantos adolescentes conseguem acessar essas plataformas? E vou mais fundo ainda: por que eles permanecem?
A resposta talvez não comece nas bets. Ela começa quando entendemos como o cérebro aprende e funciona.
Durante anos, pesquisadores estudaram como diferentes plataformas digitais conseguem manter as pessoas conectadas por tanto tempo. Hoje sabemos que muitos jogos on-line deixaram de lucrar apenas com a venda do jogo. Grande parte do modelo de negócio está em manter o jogador envolvido pelo maior tempo possível. Para isso, utilizam recompensas diárias, compras dentro do jogo, temporadas limitadas, itens exclusivos, desafios constantes e competições on-line. Quanto mais tempo a pessoa permanece, maiores costumam ser as chances de consumir.
As plataformas de apostas utilizam princípios muito parecidos. Não porque videogames e apostas sejam a mesma coisa — não são. Mas porque ambos podem recorrer a mecanismos psicológicos semelhantes para manter o cérebro engajado, em ambientes cuidadosamente arquitetados por equipes formadas não apenas por engenheiros, mas também por pesquisadores, cientistas e até psicólogos.
Na Psicologia existe um conceito conhecido como reforço intermitente. Imagine uma máquina que oferece uma recompensa toda vez que você aperta um botão. Depois de algum tempo, a surpresa desaparece. Agora imagine uma máquina que recompensa apenas algumas vezes, sem que você saiba exatamente quando. É justamente essa imprevisibilidade que torna o comportamento tão resistente.
O cérebro passa a acreditar que a próxima tentativa pode ser a vencedora.
É por isso que a dopamina não aparece apenas quando recebemos uma recompensa. Ela também é liberada na expectativa de recebê-la. É esse mecanismo que ajuda a explicar por que pode ser tão difícil interromper esse ciclo. Imaginem isso na infância e na adolescência. Por isso acredito que essa discussão merece ainda muita atenção.
O cérebro está em pleno desenvolvimento. Enquanto as áreas relacionadas ao prazer, à novidade e à busca por recompensas já funcionam de maneira bastante intensa, o córtex pré-frontal — região responsável pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela avaliação das consequências — ainda está amadurecendo.
Esperar que um adolescente resista sozinho a plataformas cuidadosamente desenvolvidas para capturar sua atenção é desconsiderar como o desenvolvimento cerebral acontece. Isso não significa que toda criança que joga videogame ou todo adolescente que entra em contato com propagandas de apostas desenvolverá um problema. Significa apenas que eles são, sim, mais vulneráveis a ambientes que oferecem recompensas rápidas, constantes e imprevisíveis.
Então, para você que chegou até aqui, nosso papel vai muito além de monitorar quanto tempo de tela nossos filhos consomem. Isso também é importante, mas algoritmo nenhum tem a capacidade de substituir uma conversa durante o jantar. Nenhuma plataforma pode ensinar valores e acolhimento humano. Nenhuma inteligência artificial é capaz de ocupar o lugar de uma família que conversa sobre dinheiro, frustração, consumo, escolhas e responsabilidade, que estabelece limites claros e que incentiva o pensamento crítico.
Ensinar uma criança a perguntar "Por que estou clicando nisso?", "Quem ganha quando eu permaneço aqui?" e "Isso foi criado para me ajudar ou para prender a minha atenção?" talvez seja uma das habilidades mais importantes que possamos desenvolver nesta geração.
Eu repito e, se puderem, compartilhem essa mensagem: proteger nossos filhos hoje já não significa apenas limitar o tempo de tela. Significa ajudá-los a compreender o que existe por trás dela.
No fim, a maior proteção não está em um aplicativo que bloqueia acessos. Ela está nas relações que construímos, na presença dos adultos e na capacidade de formar crianças e adolescentes que não apenas utilizam a tecnologia, mas conseguem compreendê-la antes que ela comece a decidir por eles.
Referências
Ipsos & Unico. Pesquisa sobre apostas on-line entre adolescentes brasileiros (2025).
LENAD III – Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (UNIFESP). Dados sobre comportamento de apostas entre adolescentes brasileiros.
Steinberg, L. Age of Opportunity: Lessons from the New Science of Adolescence. Houghton Mifflin Harcourt, 2014.
Schultz, W. Dopamine reward prediction error coding. Dialogues in Clinical Neuroscience, 2016.
