9 de julho, memória e orgulho: a história do meu bisavô na Revolução de 1932

Entre lembranças de família e registros da Revolução Constitucionalista, a trajetória de meu bisavô Oscar Ramos revela como o 9 de julho se transformou em memória viva e tradição de orgulho em Cotia

Imagem gerada pelo ChatGPT


As minhas primeiras lembranças do 9 de julho não têm nada a ver com livros de história.

Têm a ver com ele.

Meu bisavô, Oscar Ramos, era o tipo de homem que fazia o tempo parecer ter outro ritmo nesse dia. Em Cotia, onde viveu desde 1963 até sua morte, no ano 2000, aos 89 anos, o 9 de julho não era apenas uma data no calendário. Era um reencontro com a própria vida.

Ele tinha uma postura que eu nunca esqueci: sentado na frente de casa, muitas vezes já uniformizado, como se esperasse algo que só ele sabia reconhecer. Não era teatro, nem lembrança distante. Era presença. Era ritual.

E quando chegava a hora dos desfiles em São Paulo, ele ia. Sempre ia.

Meu Bisavô Oscar com a minha bisavó Brígida

Minha avó Lúcia chegou a me dizer em uma entrevista que fiz para a Revista Circuito, em 2019: “Se ele estivesse vivo hoje, estaria de terno, gravata e boina. Ele ficava todo feliz, chorando de alegria. Levantava cedo para o desfile. Era todo ano no 9 de julho”.

Oscar Ramos não foi apenas um ex-combatente da Revolução Constitucionalista de 1932. Ele foi também um homem que viveu outra guerra: a Segunda Guerra Mundial. Ele atravessou a vida carregando algo que não se explica facilmente: a marca de quem esteve onde a história deixa de ser abstrata.

Ele serviu à Marinha e ao Exército Brasileiro. Mas deixou as duas corporações ao longo da vida. Ainda assim, foi no Exército que acabou sendo chamado para a Revolução de 1932, o movimento que colocou São Paulo em confronto com o governo de Getúlio Vargas.

Naquele contexto, os paulistas pediam uma nova Constituição e eleições. Mais de 200 mil voluntários se mobilizaram. Cerca de 60 mil chegaram aos combates. Do outro lado, o governo federal enviou aproximadamente 100 mil soldados.

Meu bisavô estava entre eles.



Ele não gostava de romantizar o que viveu. Mas também não conseguia apagar. Contava, quando se abria, sobre trincheiras, sobre o medo e sobre a poeira que parecia nunca sair da pele. E havia uma lembrança que atravessava tudo: um amigo morto ao seu lado.

“Meu pai estava na trincheira com mais dois amigos. Um deles foi atingido com dois tiros na cabeça e morreu na hora. Ele também levou um tiro de raspão no capacete”, contou meu tio, Oscar Ramos Filho.

Minha avó Lúcia com meu tio Oscar

Mesmo assim, ele dizia que não estava ali para matar ninguém. Estava para servir o país.

Depois da Revolução, a vida seguiu com rupturas. Já casado e com uma filha ainda criança, ele deixou a vida militar por um período. Mas acabou preso após abandonar o Exército. E, mais tarde, quando o mundo caminhava para a Segunda Guerra Mundial, ele voltou a se alistar.

O Brasil integrava a guerra por meio da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Cerca de 25 mil homens foram mobilizados. Meu bisavô chegou a atuar na fronteira. E, segundo a família, estava prestes a ser enviado para a Itália quando a guerra terminou.

Ele não chegou ao front europeu. Mas viveu a expectativa dele.

“Eles já estavam chegando na Itália quando veio a notícia de que a guerra havia acabado. Se ele tivesse ido, talvez não teria sobrevivido”, diziam em casa.

Com o tempo, aprendi que a vida dele não foi feita apenas de grandes acontecimentos, mas também de silêncios difíceis.

Ele se aposentou como ex-combatente da Revolução de 1932, mas com um valor baixo, insuficiente para viver com tranquilidade. Mesmo assim, continuou trabalhando como pedreiro para se sustentar.

E ainda assim, todos os anos, no 9 de julho, ele voltava a vestir a memória.

Ia aos desfiles. Se arrumava com antecedência. Se emocionava.

Como se aquele dia fosse uma forma de permanecer vivo dentro da própria história.

Ele morreu no ano 2000.

Mas há datas que não terminam com a vida de quem as viveu.

E o 9 de julho, para mim, sempre foi uma delas.




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