Psicóloga discute o impacto social e emocional da sobrecarga materna e como a ausência de suporte coletivo afeta não apenas a mãe, mas todo o entorno
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Coluna Razão de Crescer, por Evenyn Uchôa
Eu escrevo este texto do hospital. E, nesses dias, tem uma coisa que ficou impossível de não ver: quando a aldeia falha, a mãe adoece.
Eu tenho rede de apoio. Tenho um parceiro que faz o que precisa ser feito e, ainda assim, sinto o peso do maternar. Por isso, resolvi escrever também a partir de uma perspectiva que vai além da minha vivência individual. Escrevo sabendo que a minha realidade é uma pequena parcela e a que eu vejo, nos corredores, nas conversas, na clínica, no meu convívio social, é outra. Isso não é uma queixa, é constatação.
Depois de refletir mesmo antes de estar aqui com meu filho internado, isso já aparecia com frequência. Porque a construção da visão da mãe também existe na forma como nos ensinaram a ser mulher. É um lugar que não permite falha. A mãe não pode errar, não pode cansar demais, não pode querer sair, não pode não dar conta. E quando alguma coisa sai do lugar, um adoecimento, um cansaço, um casamento que acaba, a narrativa continua recaindo sobre ela. O que ela não fez, onde ela falhou, por que não sustentou.
Recentemente, em uma conversa, ouvi sobre uma mãe que “deixou” o filho com o pai depois que o casamento terminou por decisão dela. A história tinha suas questões, tinha responsabilidade, tinha erro. Mas o que mais me chamou atenção não foi isso. Foi como, rapidamente, a narrativa se tornou sobre ela, questionada pela decisão; ele, quase elogiado pela “força” de ter ficado com a criança. Se fosse ela ficando, seria o esperado e dificilmente, para a maioria das pessoas, ele seria questionado. Como se, para um homem, cuidar fosse algo a mais. E, para uma mulher, qualquer ruptura já fosse falha. Como se o lugar dela fosse fixo e sair dele, de alguma forma, precisasse ser justificado.
Isso vai se repetindo de um jeito tão automático que parece natural. Mas não é. É construído há décadas. A gente colocou a maternidade nesse lugar quase sagrado e, junto com isso, tirou da mulher o direito de errar, de cansar, de precisar de pausa, de não dar conta em alguns momentos. Como se, por ter sido uma escolha, tudo tivesse que ser sustentado sem falha ou, se não foi planejado, agora que lide sozinha com as consequências. E, mesmo quando existe apoio, mesmo quando existe presença, a responsabilidade final continua encontrando o mesmo lugar: a mãe.
E quando esse corpo cansa, quando essa conta não fecha, o entorno age como se fosse escolha, como se fosse desorganização, fraqueza, falta de preparo. O que deveria ser dividido vira obrigação exclusiva. O que deveria ser apoio vira cobrança. O que deveria ser rede vira isolamento. E aí, quando o adoecimento chega porque chega esse é o ponto: a narrativa ainda recai sobre ela. Exagerada, descontrolada, histérica, incapaz. Isso não é novo. Não é individual. É uma estrutura que funciona assim. E, no meio disso tudo, tem uma criança. Uma criança que, muitas vezes, não está vivendo apenas as consequências de uma possível falha materna, mas também da ausência de suporte dos outros pares, de uma rede que não sustenta, de uma sociedade que insiste em apontar para a mãe como único e exclusivo erro.
Enquanto se discute quem falhou, quem deveria ter feito diferente, quem saiu do lugar esperado, a criança, muitas vezes, fica em segundo plano, atravessada por decisões, julgamentos e ausências que não são só de uma pessoa. Porque quando a responsabilidade é concentrada, o cuidado também se fragiliza. E talvez um dos pontos mais importantes seja esse: sair da nossa perspectiva individual e conseguir olhar para o todo. Para necessidades que são coletivas, sociais e, muitas vezes, silenciadas.
Eu não estou dizendo que uma mãe está certa ou errada, por suas decisões. O foco aqui não é esse, perceberam? O foco é perceber como, quase sempre, ela é julgada enquanto o homem é elogiado e, nesse movimento, a “aldeia” se afasta daquilo que deveria ser central: a criança e os seus direitos. Porque, quando a aldeia falha, não é só a mãe que adoece. O entrono que adoece junto.
