Advogada Myrella Ávila mostra como o regime tributário, quando não acompanha a evolução do negócio, pode comprometer margens e resultados sem sinais imediatos
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Coluna Lei & Negócios, Por Myrella Ávila Guardini
A empresa cresce, as vendas aumentam, o movimento é bom. No papel, tudo indica que o negócio está no caminho certo. O contador entrega os números, os impostos são pagos e a sensação é de que a parte fiscal está sob controle. Mas nem sempre está!
Existe um erro comum, silencioso e, muitas vezes, ignorado por anos: empresas enquadradas no regime tributário errado — sem sequer desconfiar disso. E o mais curioso é que esse não é um problema que se anuncia. Não chega com urgência, não trava a operação, não gera um susto imediato. Ele simplesmente acontece. Mês após mês. Ano após ano. Como um vazamento pequeno que, no longo prazo, compromete toda a estrutura.
A escolha do regime tributário costuma ser feita no início da empresa. Simples Nacional, Lucro Presumido, Lucro Real. Uma decisão que, naquele momento, faz sentido. O problema é que o negócio segue em movimento — cresce, muda de perfil, altera custos, ajusta margens — e o enquadramento permanece o mesmo, como se nada tivesse mudado. E é aí que começa o descasamento.
Quando o regime não acompanha a realidade da empresa, o impacto não aparece de forma evidente. Ele se manifesta na margem que encolhe sem explicação clara, no caixa que não acompanha o faturamento, na sensação constante de que se trabalha muito para ganhar menos do que deveria. É comum atribuir isso à carga tributária elevada — o que, de fato, faz parte do cenário brasileiro. Mas, em muitos casos, o problema não está apenas no quanto se paga, e sim na forma como se paga.
Um enquadramento inadequado pode significar, na prática, um custo tributário maior do que o necessário, sem que o empresário tenha visibilidade disso. E como esse tipo de erro não gera uma ruptura imediata, ele se prolonga. Vai sendo absorvido pela operação, diluído no dia a dia, até se tornar parte da rotina. Quando percebido, muitas vezes já representou um impacto financeiro relevante.
Empresas mais organizadas tratam essa escolha de outra forma. Entendem que o regime tributário não é uma decisão definitiva, mas um elemento estratégico que precisa ser revisitado. Cruzam dados, analisam números, ajustam o modelo conforme a realidade do negócio. Não por formalidade, mas por necessidade. No fim, a diferença não está apenas na estrutura tributária, mas na postura diante da gestão. Porque, quando não há acompanhamento, não há questionamento. E quando não há questionamento, o erro permanece — discreto, constante e caro.
Empresas não perdem dinheiro apenas por decisões erradas. Perdem também por decisões que nunca foram revistas. E talvez esse seja o ponto mais importante: nem sempre o problema está onde se imagina. Às vezes, ele está justamente naquilo que parece resolvido. E se o regime tributário não for o único ponto mal compreendido dentro da sua empresa? E se nem mesmo o seu lucro refletir, de fato, o quanto você realmente ganha? É sobre isso que vamos falar no próximo artigo.
