Mês das mulheres: da luta por direitos à autonomia sobre o próprio corpo

Leia o Saber Saúde, a coluna da Dra. Amanda Druziani.



O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não nasceu como uma data comemorativa, mas como um marco de mobilização social e política. Sua origem está associada a movimentos operários do início do século XX, especialmente à luta de mulheres por melhores condições de trabalho, salários dignos e participação política na Europa e nos Estados Unidos.

Ao longo das décadas, a pauta evoluiu. Se no início o foco era o direito ao trabalho e ao voto, hoje o debate inclui um eixo ainda mais estrutural: o direito à autonomia sobre o próprio corpo.


Saúde da mulher: conquistas que mudaram o jogo


A história da saúde da mulher é marcada por avanços que não são apenas médicos — são sociais, econômicos e jurídicos.

Entre alguns marcos relevantes:
  • 1960: aprovação da primeira pílula anticoncepcional (Enovid) nos Estados Unidos
  • Décadas seguintes: disseminação global do acesso a métodos contraceptivos
  • Brasil (Lei nº 9.263/1996): regulamentação do planejamento familiar
  • Brasil (Lei nº 14.443/2022): eliminação da exigência de consentimento do cônjuge para esterilização voluntária
Cada um desses marcos representa uma ruptura com um modelo histórico em que a mulher tinha pouca ou nenhuma autonomia sobre decisões reprodutivas.

Margaret Sanger


A mulher que revolucionou a vida de todas as próximas gerações de mulheres do mundo. Pouco conhecida sua história e de tanta importância. Margaret era uma enfermeira e ativista norte-americana que se tornou uma das principais responsáveis por iniciar o movimento moderno de controle de natalidade.

Filha de uma mulher que teve 18 gestações, Sanger cresceu vendo os impactos físicos e sociais que isso causou em sua família, o que a impulsionou em buscar uma solução para o planejamento familiar. Ela não inventou a pílula, mas convenceu financiadores a investir na pesquisa de Gregory Pincus, o biólogo que inventou o Enovid em 1960 e começou um movimento de propagar informação para que as mulheres soubessem e tivessem acesso a esta medicação. Isso lhe custou inclusive sua liberdade, pois era proibido o controle de natalidade e ela foi presa por um período.

Anticoncepcional: o divisor de águas


A literatura médica mostra que gestações sucessivas, especialmente quando numerosas e com intervalos curtos, estão associadas a aumento relevante de riscos à saúde da mulher, incluindo anemia, hipertensão e complicações obstétricas. Mais do que um número absoluto, o que está em jogo é a possibilidade de escolha e planejamento reprodutivo.

A autonomia sobre a gestação transformou não apenas a saúde reprodutiva, mas toda a dinâmica social da mulher.

Com o controle da fertilidade, abriu-se espaço para:
  • Planejamento da vida profissional e acadêmica
  • Redução de gestações não planejadas
  • Maior autonomia nas relações pessoais
A discussão sobre saúde da mulher não pode ser limitada ao aspecto biológico. Ela envolve acesso à informação, liberdade de decisão e condições reais para exercer essas escolhas.

O direito de decidir se, quando e quantos filhos ter redefine o papel da mulher na sociedade — inclusive no mercado de trabalho, na educação e na construção de projetos de vida.

O anticoncepcional, nesse contexto, não é apenas uma tecnologia médica.
É uma ferramenta de autonomia.

 

Referências bibliográficas:
World Health Organization - WHO – Maternal mortality & reproductive health reports
Conde-Agudelo A et al. “Birth spacing and risk of adverse perinatal outcomes”
(JAMA, 2006)
Ministério da Saúde - Protocolos de Atenção à Saúde da Mulher
Cleland J et al. “Contraception and health” (The Lancet, 2012)
United Nations - Relatórios sobre direitos reprodutivos
Brasil – Lei nº 9.263/1996 (Planejamento Familiar)

Sobre a autora:
Com nove anos de formação médica, Dra. Amanda construiu uma trajetória marcada por especialização e aprofundamento técnico. Após a residência em Ginecologia e Obstetrícia, seguiu para uma segunda residência em Uroginecologia, área voltada ao diagnóstico e tratamento das disfunções urinárias femininas. Sua formação inclui ainda pós-graduação em Ginecologia Endócrina e, atualmente, ela desenvolve mestrado em Uroginecologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


 


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