Em sua coluna Razão de Crescer, Evenyn Uchôa detalha por que crianças e adolescentes não conseguem antecipar certos riscos e como o diálogo pode ser a principal proteção
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| Imagem ilustrativa |
Coluna Razão de Crescer, por Evenyn Uchôa
Na minha clínica, aqui na região, já atendi crianças que foram aliciadas dentro da plataforma. Casos que estão em investigação. Não é exagero. É realidade.
O Roblox, assim como outras plataformas de jogos on-line é um ambiente social com chats, grupos e interações privadas, pode se tornar terreno para manipulação justamente por parecer inofensivo.
São nessas plataformas que organizações criminosas, como o chamado 764, por exemplo, abordam crianças e adolescentes. Eles chegam aos poucos:
“Você joga muito bem.”
“Você é diferente.”
“Quer fazer parte de algo exclusivo?”
Depois vêm as missões. Pequenas tarefas que prometem status ou vantagens dentro do jogo. Aos poucos, os pedidos ultrapassam a tela e podem evoluir para exigências cada vez mais invasivas.
Por que isso funciona?
Porque estamos falando de cérebros em desenvolvimento.
O córtex pré-frontal, responsável por avaliar riscos, prever consequências e controlar impulsos, ainda não está plenamente formado na infância e adolescência. Mas não é só isso.
Nessa fase, o sistema límbico, que regula emoções e recompensa, é mais reativo. As emoções são mais intensas. A busca por novidade é maior. A necessidade de pertencimento é profunda.
Entre 10 e 13 anos, especialmente, há uma sensibilidade aumentada à aprovação e à rejeição. A aprovação dos amigos ativa circuitos de recompensa no cérebro. A exclusão social, nessa fase, realmente causa dor.
Quando alguém dentro do jogo valida, elogia e inclui, o cérebro registra isso como recompensa. Quando existe ameaça de exclusão, o medo de perder esse lugar pode falar mais alto do que qualquer alerta racional.
É nesse cenário que crianças e adolescentes ficam vulneráveis em plataformas digitais.
E o risco se torna ainda maior quando falamos de crianças que já enfrentam bullying, ansiedade, depressão ou solidão. Quando alguém dentro do jogo as vê, valida e oferece um lugar de pertencimento, isso pode preencher um vazio importante e abrir espaço para concessões perigosas.
A manipulação não começa com violência.Começa com vínculo.
O erro comum do adulto é concluir que então a criança ou adolescente não gosta de mais nada. Mas a verdade não é essa.
Nosso cérebro não foi criado para lidar com hiper estímulos constantes, recompensas rápidas e validação ilimitada. Isso desregula. Isso aumenta irritabilidade, impulsividade e ansiedade.
Não é desinteresse pela vida real.
É um cérebro exposto a estímulos intensos demais, rápidos demais, constantes demais.
Sinais de alerta
Nem sempre a criança vai contar. Por isso, observe mudanças como:
• Segredo excessivo sobre o jogo.
• Mudança brusca de humor.
• Uso escondido ou durante a madrugada.
• Ansiedade intensa ligada ao celular ou até a situações do cotidiano.
• Apagar rapidamente histórico de chats ou mensagens pelo whatsapp.
Em casos mais graves, pode haver aumento de comportamentos autolesivos ou medo de desligar o aparelho.
O que fazer
- Revise configurações de privacidade.
- Acompanhe os jogos acessados.
- Mantenha dispositivos em áreas comuns.
Pense também em substituições inteligentes.
Ambientes mais controlados, como videogames offline ou com interação restrita, podem ser uma alternativa temporária enquanto se reorganiza a relação com o digital.
Não adianta trocar tela por passividade. Cortar tudo abruptamente ou impor atividades como obrigação não ensina autorregulação.
O cérebro precisa de desafios graduais.
Precisa sentir que domina uma habilidade.
Precisa concluir algo.
Esporte. Música. Jogos de tabuleiro. Construção. Grupos presenciais. Espaços onde exista troca real, frustração real e conquista real.
Crianças e adolescentes precisam de vínculo. Precisam de grupos verdadeiros de pertencimento. Precisam experimentar ser vistos fora do algoritmo.
Porque pertencimento é uma necessidade humana legítima.
Mas ele não pode custar nossa identidade.
Precisamos aprender e ensinar que fazer parte nunca deve significar se perder.
