A foto “inocente” que pode virar problema: os perigos de expor crianças na internet

Jéssica Lopes, especialista em Direito Penal e Tecnologia, explica como o sharenting pode abrir brechas para riscos digitais, crimes e danos futuros

Imagem criada com IA

Direito e Tecnologia, por Jéssica Lopes

Você encosta o carro na porta da escola e faz uma foto rápida: uniforme, mochila, “primeiro dia”. No fundo, sem querer, aparece o nome da escola, a placa do carro e um pedaço do portão. Você posta com carinho. Em minutos, a imagem já pode ter sido vista, salva e compartilhada por pessoas que você nem conhece.

Esse hábito tem nome: sharenting (de share + parenting). É quando pais, mães e responsáveis publicam com frequência fotos, vídeos e detalhes da rotina de crianças e adolescentes nas redes.

A intenção quase sempre é boa. O risco é que a internet não é um álbum: ela não esquece, não devolve o controle e, muitas vezes, não perdoa a ingenuidade.

Por que isso virou um problema agora?

Três mudanças transformaram “postar” em “expor”:
 
  1. Pegada digital: o que vai para a rede vira histórico e pode reaparecer anos depois.
  2. Compartilhamento infinito: mesmo em perfil fechado, existe print, encaminhamento e republicação.
  3. IA e edição fácil: imagens e áudios podem ser recortados, dublados, remixados e manipulados. Entidades de proteção digital têm alertado para o uso crescente de IA na criação/manipulação de material sexual envolvendo crianças a partir de imagens reais.

Print não expira. Privacidade não é garantia de controle.

Riscos reais e comuns (com exemplos hipotéticos)

Exposição de rotina e localização


Geotag, uniforme com identificação, fachada, placa do carro, trajeto, horário fixo. Tudo isso vira pista.

Situação hipotética:
Uma mãe posta “toda terça e quinta na natação” com foto na porta do clube. Um desconhecido começa a aparecer “por acaso” no mesmo horário. Quando ela percebe, já existia um padrão previsível.

Aliciamento (grooming), perfis falsos e golpes por engenharia social

Criminosos podem se aproximar da criança usando informações do feed (“eu te vi na sua escola”) ou usar fotos e detalhes para enganar adultos (“sou da secretaria, preciso confirmar dados”).

Situação hipotética:

O pai posta vídeo do filho cantando com a legenda “7 anos hoje”. Um perfil falso elogia, manda DM, pede “mais vídeos” e tenta levar a conversa para outro aplicativo.

Cyberbullying e humilhação futura

Crianças crescem. O que hoje parece “fofo” pode virar vergonha, apelido, meme, chantagem emocional e dano à reputação.

Situação hipotética:

A família posta repetidamente “tombos e broncas” do adolescente. Meses depois, colegas republicam em grupos para zoar. Ele se isola, evita a escola e muda a forma de se vestir para “não virar assunto”.

Uso indevido de imagem/voz (montagens, deepfakes, sexualização, perfis “fan”)

Fotos comuns podem ser recortadas para perfis falsos, montagens e conteúdos inadequados. Em situações graves, imagens podem ser sexualizadas por terceiros — e isso exige reação rápida e rede de proteção.

O risco raramente começa “grave”. Ele começa pequeno, repetido e público.

O que a lei protege (sem excesso técnico, mas com base)

A lei brasileira parte de um ponto central: criança e adolescente têm prioridade absoluta e proteção integral (Constituição, art. 227). O ECA reforça a proteção da dignidade, imagem, identidade, vida privada e respeito (por exemplo, arts. 15, 17 e 18). A Constituição também protege intimidade, vida privada, honra e imagem (art. 5º, X), e o Código Civil tutela imagem e vida privada (arts. 20 e 21).

Na prática, isso significa: o direito de postar não é “carta branca” para expor.

Proteção de dados e segurança digital (LGPD, na vida real)

Quando você publica nome, idade, escola, localização e rotina, está expondo dados pessoais. A LGPD prevê regras específicas para crianças e adolescentes e reforça o critério do melhor interesse (art. 14).

Pense nisso como “higiene digital”: reduzir dados desnecessários é reduzir risco.

Quando pode virar tema penal

Nem todo problema vira crime, mas certos cenários podem se conectar a: perseguição/stalking (art. 147-A do CP), ameaças e extorsão, crimes contra a honra, e divulgação de conteúdo íntimo (art. 218-C do CP).

Em crimes envolvendo exploração sexual de crianças e adolescentes, a resposta estatal é rígida e a proteção é prioridade. Não tente resolver sozinho(a).

Frases que eu, como criminalista, mais ouço quando o problema estoura
“Mas meu perfil era fechado…”
“Foi só uma foto inocente.”
“Eu não sabia que dava para descobrir a escola pela imagem.”
“Criaram um perfil com a foto do meu filho.”
“Estão me ameaçando com prints antigos.”

O que NUNCA postar

  • Identificação direta: nome da escola, brasão do uniforme, carteirinha, crachá.
  • Placa do carro, fachada da casa/condomínio, portão, rota diária.
  • Documentos e dados: certidão, RG, cartão do SUS, boletim, comprovantes, bilhetes com informações.
  • Conteúdo que humilha: castigos filmados, nudez, choro intenso, “exposição para dar lição”.
  • Agenda e vulnerabilidade: “sozinhos em casa”, viagem por dias, horários fixos.
CHECKLIST DO POST SEGURO
 
  1. Desative geolocalização e evite marcar lugares em tempo real.
  2. Não revele rotina (“sempre”, “toda semana”, horários fixos).
  3. Não mostre uniforme identificável, placa, fachada, portão, trajeto.
  4. Prefira fotos de costas, em ângulos neutros, ou use borrar/ocultar rosto.
  5. Revise privacidade: quem vê, quem comenta, quem manda DM.
  6. Faça “pente fino” em seguidores desconhecidos e contas suspeitas.
  7. Poste eventos com crianças depois (não “ao vivo”).
  8. Em aniversários, evite convite público com local/horário/lista de crianças.
  9. Cuidado com objetos que entregam dados: caderno com nome, medalha com escola, bilhete na mochila.
  10. Regra do “amanhã”: com 18 anos, seu filho concordaria com esse post?
  11. Combine limites e consentimento com adolescentes (e respeite o “não”).
  12. Use álbuns privados/backup para família, não o feed público.
  13. Se for compartilhar, compartilhe momento, não identificação.
Proteja a infância hoje para não correr atrás de danos amanhã.

Para escolas e festas infantis: atenção redobrada

Em grupos de WhatsApp, formaturas, apresentações e festas, circulam fotos coletivas — e nem sempre todos ali são próximos. Combine regras claras: foto coletiva só com autorização, sem nomes completos e sem horários/turmas; evite repost em redes abertas; e lembre que a imagem do filho dos outros também merece cuidado. Quando possível, a escola deve ter política de imagem e orientação sobre compartilhamento.

JÁ POSTEI DEMAIS: e agora? (passo a passo)
 
  • Faça um “mutirão” de revisão: posts públicos, destaques, álbuns antigos e marcações.
  • Arquive/apague o que entrega localização, rotina, documentos e identificação.
  • Reforce segurança: senha forte + autenticação em dois fatores + e-mail de recuperação.
  • Se houver abuso, documente (prints, links, datas, perfis) sem espalhar.
  • Denuncie e peça remoção nas plataformas (reportar, bloquear, solicitar retirada).
  • Procure a rede de proteção quando necessário: escola, Conselho Tutelar, delegacia/BO.
  • Em conteúdos graves (especialmente sexualização), use canais especializados de denúncia e busque orientação profissional.
  • Atenção a sinais na criança/adolescente: medo de sair, vergonha intensa, isolamento, queda escolar, ansiedade. Apoio psicológico pode ser decisivo.

Não é sobre demonizar redes sociais

Redes podem ser afeto, memória e comunidade. O ponto é: infância precisa de proteção, não de vitrine. A cultura do consentimento e da segurança digital começa em casa — com limites, conversa e escolhas conscientes.


 

Postagem Anterior Próxima Postagem