A inclusão de crianças autistas: um desafio que famílias ainda enfrentam em Cotia

Reportagem especial do Cotia e Cia ouviu familiares de crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) que relataram as imensas dificuldades nos atendimentos dentro da Saúde e Educação do município; a reportagem também ouviu especialistas das duas áreas abordadas que explicaram como seria um atendimento ideal para essas crianças; nesta quinta-feira (9), é comemorado o Dia da Criança Especial, mas será que essas famílias têm o que comemorar? Confira a reportagem completa

Montagem de fotos com familiares de crianças com TEA ouvidos pelo Cotia e Cia 



REPORTAGEM: NETO ROSSI 


Um estudo do Center of Diseases Control and Prevention (CDC), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, diz que uma criança a cada 100 nascidas tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA), mostrando incremento significativo ao longo do tempo.

Há alguns anos, ocorria um caso para cada 500 crianças. A estimativa é que, em todo o mundo, 70 milhões de pessoas tenham TEA, sendo 2 milhões no Brasil.

A reportagem do Cotia e Cia conversou com familiares de crianças com TEA que vivem no município de Cotia. Elas relataram, entre outros assuntos, as dificuldades enfrentadas na cidade, principalmente nas áreas da Saúde e Educação.

A reportagem também ouviu especialistas das duas áreas abordadas, que explicaram como seria um atendimento ideal para crianças com TEA.

Cotia e Cia publica essa reportagem na data de hoje (9/12), quando é comemorado o Dia da Criança Especial. O objetivo da data é refletir sobre a importância da inclusão e garantia de direitos das crianças que possuem algum tipo de necessidade especial, a fim de melhorar sua qualidade de vida e ajudar no seu desenvolvimento, mesmo com todas as limitações.

Mas será que em Cotia essas famílias têm o que comemorar? O que falta para o município melhorar em relação ao atendimento à essas pessoas que tanto necessitam de um acolhimento?

Confira a reportagem completa abaixo

A auxiliar de cozinha, Pricila Marcelino, é mãe da pequena Emanuelle, que hoje está com 4 anos. Mas foi com um pouco mais de 2 de idade que ela descobriu, através de consultas com pediatra, que sua filha tinha suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Pricila, então, começou a saga em busca de atendimento médico na rede de saúde municipal de Cotia.

O pediatra de uma unidade de saúde fez o encaminhamento para Emanuelle passar com uma fonoaudióloga. Mas ela não conseguiu atendimento. Após a pandemia, mudou o pediatra, que solicitou que sua filha passasse com um Terapeuta Ocupacional (TO); Mas, antes, a criança tinha que ter o laudo de um neuropediatra.

Mas Pricila conta que a própria atendente da unidade de saúde sugeriu que ela fizesse o agendamento com neuro em uma clínica particular, porque pela rede pública iria demorar demais.

“Como ia demorar muito, eu fiz um plano no Cartão de Todos – uma espécie de convênio com preços mais acessíveis – onde minha filha conseguiu atendimento com TO, fono e fisioterapia. Mas eu não consegui ainda agendar neuro para dar o laudo que ainda não tenho”, conta.

Sem o laudo, Pricila não consegue alguns benefícios para sua filha como, por exemplo, a Carteira de Identificação do Autista, instituída em Cotia desde setembro de 2019 - leia mais sobre a carteira de identificação no final da reportagem. 

Com o tratamento sendo feito em clínica particular, Pricila tem um gasto mensal de quase R$ 800, somando as consultas e passagens de ônibus.

Pricila com sua filha Emanuelle, de 4 anos. Foto: Arquivo pessoal 



SEM INCLUSÃO NAS ESCOLAS

O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece que o Brasil deve incluir todos os estudantes de 4 a 17 anos na escola. Os estudantes com necessidades especiais devem ser matriculados, preferencialmente, em classes comuns.

Para isso, o Brasil deve garantir todo o sistema educacional inclusivo, salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.

O assunto diz respeito à inclusão social de crianças com deficiências físicas e intelectuais. A proposta educacional é oferecer educação de qualidade para todos, sem discriminação, incentivando os alunos especiais a frequentarem as mesmas escolas que as demais crianças.

Mas essa proposta, instituída pelo PNE, está bem distante da realidade das escolas municipais de Cotia, como é o caso de Cristian, de 8 anos, diagnosticado com TEA. Em sua escola, não tem um auxiliar de classe para orientá-lo e auxiliá-lo em suas dificuldades.

O pai de Cristian, o tatuador Eder Dias de Oliveira, teve que entrar com recurso na Secretaria de Educação de Cotia para solicitar um profissional na sala de seu filho.

“Eu entrei com recurso, porque até então, a professora está sozinha na sala. Até antes da pandemia, estava sem auxiliar. Ele [Cristian] é meio intolerante com barulho, com bagunça. Ele fica exaltado. Eu converso com a professora para ela ficar de olho nele, mas ela tem que ficar olhando a sala toda sozinha. Fica difícil. Tinha que ter uma inclusão maior na escola, e não tem”, explica.

Eder com seu filho Cristian, de 8 anos. Foto: Arquivo pessoal 


O problema com a falta de inclusão na educação do município de Cotia também é sentido por Michele Cristina, mãe de Jonathan, de 9 anos. Michele integra o grupo ‘Mães que Lutam’, formado por mães e familiares de crianças autistas. Para tratar do assunto, o grupo chegou a se reunir com representantes da Secretaria de Educação.

“Com a educação, pontuamos a falta de professores auxiliares. É uma demanda que tem sido recorrente. Tem criança que não está indo para a escola porque não tem auxiliar”, diz Michele.

Ela explica que Jonathan sofreu bullying na sala de aula e não houve intervenção por conta da falta de um profissional para acompanhá-lo. “Cheguei por diversas vezes na escola e meu filho estava sozinho num canto mexendo no celular, porque não tem o preparo para lidar com eles”, critica.

Michele com seu filho Jonathan, de 9 anos. Foto: Arquivo pessoal 



Meu filho precisa de um auxiliar como parte do tratamento. Ele sabe ler e escrever, mas ele tem uma questão psicológica, e não pedagógica. Ele tem medo de ir para a escola com medo de ser rejeitado e com medo de sofrer bullying

Angélica Melo, mãe de Miguel, de 4 anos, que também integra o grupo, detalha que a inclusão não é só a criança estar na escola. “É um tripé: escola, terapia e família. Se não funciona esse tripé, a criança com autismo não vai estar incluída no processo de desenvolvimento”, avalia.

O PAPEL DE UM AUXILIAR DE CLASSE NA INCLUSÃO

Para Luciana Inforsari, pedagoga e neuropsicopedagoga clínica e institucional, o professor auxiliar tem um papel fundamental no processo de ensino do aluno com autismo. Segundo ela, o professor regente junto com o professor do AEE (Atendimento Educacional Especializado) farão uma elaboração da atividade que deverá ser aplicada ao aluno, facilitando a acessibilidade ao conteúdo trabalhado.

“O ideal é que seja um aluno com TEA (Transtorno do Espectro Autista) ou com qualquer outra deficiência para 20 alunos, pois o professor conseguirá dar a atenção e suporte necessários para todos. Ainda não temos legislação que regulamente essa questão, porém, é sabido que a qualidade de ensino oferecida ao aluno com TEA e aos demais, seria mais eficiente com um número menor de alunos por sala, afinal, cada aluno é um, típico ou atípico, todos merecem ser atendidos dentro de suas especificidades”, avalia Luciana, que também é professora de Atendimento Educacional Especializado na Prefeitura do Município de São Paulo.

A opinião da neuropsicóloga Infantil, Edileine Martins, é semelhante a de Luciana. A especialista avalia que, para uma melhora neste contexto escolar, seria necessário o desenvolvimento de práticas colaborativas diferenciadas ofertadas pela escola. "Uma vez que o aprendizado é individual, não podemos esperar que ocorra da mesma maneira em indivíduos com TEA ou não", diz.

Edileine também ressalta que outro fator importante é a metodologia de ensino, observar e conhecer as habilidades do aluno para abrir portas para um universo de possibilidades e novos conhecimentos diversificado de ensino. "Dentre eles, o suporte necessário a ação pedagógica e adaptações curriculares diante da diversidade proposta, promovendo um ensino de qualidade", detalha.

No entanto, os auxiliares de classe que trabalham na rede municipal de Cotia não têm preparo para lidar com alunos com TEA. Samuel Rohini, que trabalhou como auxiliar de classe em quatro escolas municipais de Cotia por quase 5 anos, relata que os profissionais nunca receberam nenhum tipo de treinamento ou instrução da Prefeitura de Cotia e nem da Secretaria Municipal de Educação.

O que desenvolvi foi por pura intuição ou pegando informações com professoras mais experientes. A prefeitura sempre prometeu que teríamos um curso. Mas esse curso nunca chegou

Diante desta realidade narrada por Samuel, a verdadeira inclusão nas escolas da rede municipal de Cotia ainda está distante de ocorrer, pois como explica Edileine, uma escola realmente inclusiva deve estar disposta a lidar com a heterogeneidade e diversidade.

"A escola deve acreditar que a permanência destes alunos trará benefícios para todos, rompendo valores, repensando categorias como o novo socialmente aceito, criando paradigmas e novos ensinos de aprendizagens, sejam eles através do lúdico, da música ou da criatividade eminente de cada docente", explica.

A especialista acredita, porém, que as oportunidades de inclusão de alunos com autismo tendem a aumentar com o passar dos anos. 

Penso que quanto mais as pessoas, de um modo geral, e, em especial, os profissionais da área da educação, souberem acerca dessa síndrome (características, estilos de comportamento, etc.) mais se abrirão vias de acesso à entrada dos mesmos nas escolas regulares. Creio que incluir pessoas portadoras de TID (transtorno invasivo do desenvolvimento) em classes regulares seja algo possível numa escola inclusiva

CARTA COM COMPROMISSOS

Em Cotia, o grupo ‘Mães que Lutam’ encaminhou, no dia 22 de setembro de 2021, uma carta com diversos compromissos com os autistas da cidade para todas as secretarias e conselhos municipais.

Entre as demandas, o grupo pede a criação de um centro especializado em autismo com atendimento multiprofissional; direito à educação, com o compromisso de promover a inclusão das crianças autistas na rede regular de ensino, além de um assistente de sala especializado, e também campanhas permanentes e formação continuada para profissionais da rede pública de ensino, assistência social, saúde e segurança pública.

Mas, de todas as secretarias, segundo o grupo, apenas a de Indústria e Comércio e de Trânsito retornaram, mas não de uma maneira satisfatória.

Os problemas enfrentados por Pricila, por exemplo, com a falta de especialidades médicas para Emanuelle, é mencionado na carta de compromissos. O grupo diz que a Saúde de Cotia não oferece um atendimento básico com terapeutas especializados, psicopedagogos e toda uma equipe multiprofissional.

“Eles entendem que quando o autista é considerado leve - que de autismo leve não tem nada - acham que podem ser atendidos numa UBS [Unidade Básica de Saúde]. Acontece que uma UBS não tem estrutura aqui na cidade. Temos falta de fono, psicólogo e psiquiatra. Estou em Cotia há nove anos e nós nunca tivemos um neuropediatra, que seria uma das especialidades para diagnosticar o autismo”, explica Michele.

Na mesma linha de raciocínio, Angélica lamenta o fato de o município não oferecer um atendimento adequado para as crianças autistas. “Estão esquecendo que os autistas têm grandes potencialidades e que eles [poder público] estão deixando ser apagadas por causa das dificuldades. Se tivesse uma equipe multidisciplinar especializada em autismo, o resultado seria diferente.”

Angélica, do grupo Mães que Lutam, com seu filho Miguel, de 4 anos. Foto: Arquivo pessoal 



Para a psicóloga Katielly Fernades, é muito importante, nos casos de crianças autistas, o acompanhamento de uma equipe médica multidisciplinar. Segundo ela, quanto mais rápido se descobre que uma criança tem autismo, mais eficiente será a intervenção para que ela se desenvolva com maior facilidade.

“Dependendo da idade da criança, tem que ter o acompanhamento de outros profissionais porque, geralmente, crianças com autismo precisam de um fonoaudiólogo; muitas vezes precisam de um acompanhamento neurológico ou de um psiquiatra, que também tenha conhecimento, porque as vezes é necessária medicação. Então, uma equipe multidisciplinar é muito necessária no caso de uma criança com autismo”, explica.

O papel da escola neste processo, ainda segundo a psicóloga, também é fundamental e se faz necessário para ajudar no desenvolvimento da criança autista. Katielly explica que uma das maiores dificuldades da criança com autismo é no convívio social.

Se eu privo essa criança de ter contato com o convício social, eu estou dificultando algo que ela já tem. O psicólogo ajuda a criança a desenvolver da melhor forma possível para que ela consiga ter esse contato social dentro das limitações dela. Então, o ideal é que a criança esteja estudando e que a escola faça o acompanhamento

Carteiras de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista

Em setembro de 2019, o município de Cotia instituiu a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA’s). Segundo a prefeitura, foram mais de 100 carteiras emitidas junto com a entrega de um cordão quebra cabeça para todos os cadastrados.

Ainda de acordo com a prefeitura, a Carteira de Identificação foi instituída pelo município antes mesmo de haver uma lei federal tratando sobre o assunto. A CIPTEA garante atendimento preferencial em setores públicos e privados. Além disso, segundo o executivo, os departamentos públicos municipais com atendimento à população contam com a placa de atendimento preferencial com o símbolo do autismo.

Mas a carteira de identificação mais o cordão quebra cabeça não são suficientes para trabalhar a verdadeira inclusão das crianças com TEA, uma vez que, segundo as famílias ouvidas pela reportagem, há toda uma questão de estrutura básica que o município ainda não oferece.

NOTA DA REPORTAGEM

Cotia e Cia enviou para a assessoria de imprensa da Prefeitura de Cotia, no dia 25 de novembro, todas as questões trazidas pelos familiares de crianças com TEA ouvidos pela reportagem. Mas as indagações não foram respondidas.

Através da Secretaria Municipal de Comunicação, fomos informados que, tanto o secretário de Educação, Luciano Corrêa, quanto o secretário de Saúde, Magno Sauter, atenderiam a reportagem presencialmente para mostrarem como são feitos os trabalhos das pastas com as crianças com TEA. Mas o agendamento para essa entrevista não chegou a ser concretizado.

A reportagem ainda insistiu, mais uma vez, nesta terça-feira (7), contato com a assessoria de imprensa enviando um e-mail com as mesmas questões que já tinham sido enviadas há duas semanas. Mas, novamente, não fomos atendidos.

Cabe esclarecer que, mesmo as secretarias não se posicionando dentro do enorme prazo estabelecido, o espaço continua aberto para os devidos posicionamentos, pois Cotia e Cia preza sempre por ouvir todos os lados para fazer uma reportagem.

 

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